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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Qual o sentido da felicidade?

Luiz Henrique Lopes

          Sentado na calçada fria em um dia nublado, questiono-me a respeito do sentido da felicidade. Considero a priori muitas semânticas, a fim de evitar cometer certos equívocos e para não correr o risco de delirar ao fazer-me importante; julgando ser meu posicionamento superior à visão alheia. Assim como J. Jacques Rosseau, acredito que “...depende de mim não abundar no meu sentido, não acreditar ser sozinho mais sábio do que todo mundo; depende de mim desconfiar de meu sentimento e não mudar de sentimento.” Nesse sentido, digo que minhas experiências são minhas e que são importantes; entretanto convido-lhes a relativizar tais colocações e fazer desta mensagem a sua mensagem, em seu próprio universo particular.
          A felicidade é um estado não permanente de alegria. Não a encontramos disponível nas vitrines dos Shoppings que frequentamos, não podemos enxergá-la ao virarmos a esquina com pretensão de achá-la, nem quando a perseguimos obstinadamente como um predador faminto faz com sua caça; sentindo o aroma e captando os sinais. Quando passamos a procurá-la, deixamos de encontrá-la; e quando a encontramos nós a perdemos de vista, porque somos incapazes de valorizá-la. Não a valorizamos, porque a desconhecemos; e a desconhecemos porque nos recusamos a enxergar a banalidade com seus retalhos, por isso nós a embaçamos; encandeando-a como faz aos olhos a luz do Sol.  
          Não poderia discorrer sobre tal assunto sem recorrer à Epicuro, filósofo que em sua utopia muito dissecou este tema, amparando-se na sabedoria que enxerga a realidade concreta, mas que simultaneamente também se apropria do misticismo que à luz de seu tempo a ela justifica. Para esse autor a felicidade é resultado de uma vida baseada na prudência, na beleza e na sensação. Estamos mortos, segundo ele, quando não podemos mais sentir.
          Para Epicuro o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Não obstante, defende que é preferível abdicar de alguns prazeres e escolher por vezes as dores, do que seguir os desejos de maneira deliberada; sem avaliá-los de acordo com o critério dos benefícios e dos danos que advêm de cada um. Nessa perspectiva, afirma que é preferível que permaneçamos no sofrimento por algum tempo para que possamos obter, a posteriori, um prazer que seja maior e mais duradouro do que aquele gerado pelas escolhas ocasionais e momentâneas.
          Em minha singela visão, a autorreflexão seria a melhor forma de gerenciarmos a nossa busca pelo prazer; não sendo possível de alcançá-la, porém, sem a manifestação da ação e do comprometimento com os nossos ideais. É inútil identificar as causas do sofrimento e descobrir uma forma de acessar o caminho para a libertação se não formos capazes de dar as primeiras passadas. Verdade é que as pernas bambearão, que ralaremos os joelhos bem como tropeçaremos nos buracos feitos pelas cicatrizes de nossos corações, todavia mesmo que a estrada seja íngreme e sujeita a desabamentos, sem a ação e a moralidade do comprometimento não chegaremos a lugar algum, permanecendo inertes em nosso sofrimento solitário.
          Epicuro também afirma ser a ação sobre a vida deveras importante, haja vista que apesar de não termos garantias de um porvir, não temos, outrossim, a garantia de que não haverá um futuro e de que tudo se encerra no presente. Portanto exercer ação sobre a vida e se posicionar de maneira proativa diante dela, é uma forma de combater a angústia da existência perseguida ou desejada; a angústia que se tem por sofrer por antecipação derivada de coisas que ainda virão e que podem não vir. Dessa forma, que seja o presente uma ferramenta de decisão sobre a realidade vivida, e, que este se projete sobre a realidade sonhada; visto que a felicidade frui pela apreciação do que existe e daquilo com o qual nos relacionamos e interdependemos. Na visão de Epicuro, as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; entretanto a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre.
          Pessoalmente definiria a felicidade como um momento. Um momento desprovido de intenção, um momento como aqueles que simplesmente acontecem e que mesmo assim tornam tudo diferente. A felicidade é como o abraço apertado de uma criança que te motiva a fazer do presente algo bom, como o sorriso apaixonado de um casal de velhinhos no parque, ou um momento que paramos para olhar o céu, é como ver seu filho se sujando ao comer torta e rir do bigodinho que fica depois que ele toma o mingau. É como tomar banho depois de um dia quente e sentir o calor do cobertor durante uma noite fria. O sentido da felicidade para mim é desistir dela, recorrendo à prudência de viver sem a espera de ser feliz, haja vista que não somos felizes, estamos felizes. Por isso nunca se esqueça de refundir seus enredos, pois “... o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.”

Luiz Henrique Lopes / Author & Editor

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